
Há que reforçar que na paixão não se vêem os defeitos ou os problemas referentes ao outro, vêem-se apenas o estado de graça e o prazer... essencialmente dos sentidos.
Principalmente nesses casos de paixão virtual, as pessoas apaixonam-se mais por si mesmas, pela sua capacidade de seduzir e de se envolver, do que pelo outro. Não estando em contacto directo com o outro, a paixão que acontece é apenas um reflexo: "eu apaixono-me por estar apaixonado", "eu apaixono-me por uma sensação" em oposição a "eu apaixono-me por alguém".
Virtualmente, não existem pessoas feias. Basta ser simpático, que a nossa imaginação já transforma o outro em bonito, agradável, sensual. A sensualidade está nas palavras, não nas atitudes reais.
Todas as mulheres são bonitas e sensuais e todos os homens são bonitos e carinhosos, e somamos no outro tudo o que gostamos, porque é isto que procuramos no outro. É por essa imagem que acontece a paixão. Apaixona-se pelo que o outro "aparenta ser", não pelo que é. E através da comunicação virtual é muito mais fácil preservar o ego e mostrar apenas o que se decide mostrar, escondendo aquilo que apenas o convívio “desmascara” e põe a nu. E aí, quando as máscaras caem, é que se conhece a verdadeira pessoa e podem acontecer as desilusões.
A diferença fundamental com os encontros reais é que é possível manter a imagem por mais tempo. Por outro lado, os encontros virtuais são muitas vezes tão intensos, podem ser tão ricos, que depois de alguns contactos entra-se geralmente numa intimidade que a maioria das pessoas não se permitiria nos contactos pessoais.
O facto de as pessoas não se exporem visualmente facilita ainda mais a abertura das emoções. Ao contrário dos encontros pessoais, em que a espontaneidade conta muito, nas mensagens via Internet a pessoa pode repensar as palavras, usar citações de outros que acha interessantes para a sedução ou elaborar o texto de forma a surtir maior efeito. A máscara, inevitavelmente, forma-se.
Na vida real, onde a aparência física é o principal chamariz (principal porque a “cotação” sócio-económica também e ainda tem bastante peso relacional) e só tem contacto com o lado animal, intelectual, depois com o emocional e afectivo... e só depois, às vezes, com o físico. Já nas relações virtuais as pessoas procuram e encontram companhia, cumplicidade, carinho, não importando muito a apetência para o sexo ou condição económica do interlocutor. Os limites físicos (corporais e de distância) não pesam.
Assim, atrevo-me a deixar dito que a internet é o local onde mais existe a possibilidade das "almas gémeas" se encontrarem, onde se abrem as emoções, onde se encontra sempre carinho e aceitação. Nunca foi tão fácil aproximar-se das pessoas. As "amizades" surgem de um dia para o outro, basta estar aberto a elas.
No entanto, algumas pessoas aproveitam-se do anonimato para criar uma personagem, ou seja, mostrarem-se conscientemente diferentes do que são.
Esse diferente nem sempre quer dizer uma mentira: muitas vezes a pessoa mostra-se como gostaria de ser, mostra o seu lado reprimido: o tímido transforma-se em eloquente, o feio em galã, o velho em jovem, o gordo em elegante. Embalada pela fantasia, a pessoa vende uma imagem ideal, a qual, enquanto está travestido, chega a acreditar ser. Este acaba por se tornar o principal motivo das decepções no momento do encontro pessoal: cria-se uma expectativa de que o outro seja aquilo que eu fui construindo no meu imaginário, por aquilo que eu fui apreendendo (ou que quis apreender), essa imagem nem sempre corresponde à realidade ou raramente corresponde à verdade.
Essa imagem ideal também pode ruir antes do contacto pessoal, por causa de uma "fofoca", ou de pequenos problemas de relacionamento on-line. O problema maior, em geral, não está na pessoa que transmite a sua imagem, mas na que gera falsas expectativas…
Contudo, o impensável também acontece, a paixão de uma via pode ser compartilhada e assumida por inteiro pelas partes, e a verdade ser mais "verdadeira" que a fantasia ou a ficção. A paixão pode tornar-se simplesmente em sentimento sólido e ultrapassar o inicialmente possível, pode encontrar terreno fértil no interlocutor e cultivar um significativo amor, ou uma sólida e apaixonante amizade. Não é o facto de ser inicialmente virtual e encaminhada num só sentido que impede, corta ou reduz a necessária vontade de amar e ser-se amado, pois esta função faz parte integrante dos novos conceitos de necessidades básicas de todo o moderno ser humano.
A fantasia, embora em diferentes graus faça parte do jogo da sedução, e consequentemente dos afectos, estimulada pela necessidade, induz os actores a partilharem mais do que simples desejos, imagens ou realidades, mas a trazer um contributo objectivo para uma relação que mesmo fortuita e fugaz, não deixa de satisfazer as necessidades de cada um em particular e dos dois no seu pleno. A fantasia é por isso o rastilho que, quer na internet, quer na vida real, faz explodir corações de amor ou ódio. E assim define a carga dos afectos, positiva ou negativa.
E se assim é, então, a vivência fantástica de um EU ou de um TU, necessariamente terá de partir da fantasia, que sendo ela subjectiva e por isso de alguma forma virtual, contribuirá para acalmar os corações e apagar muita da solidão que os atormenta. A troca de afectos funcionará, por isso, sempre nos dois sentidos: dar/receber e vice-versa.
Maria Cristina Quartas
Outubro/2009
(Do original: Leila Urioste Rosso “ O Perfil dos Usuários da comunicação Mediada por Computador: uma abordagem psicológica”, Brasil 2005.)