sexta-feira, 5 de março de 2010

“Ser moderno ou ser actualizado”, por Maria Cristina Quartas


O fenómeno da globalização está a acontecer duma forma rápida demais. Assistimos a mudanças repentinas todos os dias. E a toda a hora colocamos a questão, do que é certo e do que é errado.

O amor romântico está a cair em desuso e as relações deixam de ter a configuração de “contratos” a termo-vitalício e passaram a “contratos” a termo-certo. Certo que, os valores que uniam as pessoas não são hoje os mesmos.

Independentemente das mudanças a que assistimos, também temos o factor “peso da idade”. Este, por natureza, já é um motor de reflexão sobre a vida, pois apercebemo-nos que ao longo dela, mudamos muitas vezes de ideias, de opiniões. E tantas vezes, refazemos os valores e os princípios que nos norteiam.

O que era mais importante… deixa de o ser. Passando assim a pirâmide dos nossos interesses a ser uma estrutura flexível e movível.

E, ao longo dessa vida, vamos construindo uma noção de valores, princípios, interesses e conceitos.

A nossa educação e cultura permite-nos criar os alicerces da nossa individualidade e personalidade.

Contudo, através da racionalidade e livre arbítrio, vamos moldando o nosso pensamento ao meio que nos rodeia e vicer-versa.

Se observarmos à nossa volta apercebemo-nos que, fruto da evolução dos tempos e das modas, não são poucas as vezes, que nos deparamos com confrontações de ambiguidades em nós mesmos, bem como, muitas das vezes, temos que optar por situações contrárias aos nossos princípios e valores.

É precisamente neste reajustamento que vamos encontrando o equilíbrio e a coerência, entre aquilo que pensamos, aquilo que fazemos e aquilo que melhor se adapta às circunstâncias.

Evidentemente, nem sempre é uma tarefa fácil. Pois, muitas vezes, aquilo q pensamos não vai ao encontro do que fazemos ou ao encontro do que as circunstâncias nos obrigam.

Não tencionando ser tendenciosa, ou pretender de forma alguma persuadir através da minha opinião pessoal…. vou falar do que me aconteceu muito recentemente. Penso que será bom partilhar, porque o mesmo poderá ter acontecido com qualquer um dos leitores (ou em outras situações).

Pois então: o caso do casamento dos gays.

Está na moda falar-se na igualdade de direitos e tratamento relativamente a qualquer pessoa ou grupo ou “outra coisa qualquer” que surgem como algo de “diferente”. Ou, pelo menos, que é menos comum nas nossas normas de senso comum.

Confesso que esta coisa dos “gays” mexeu comigo!....

Ora, com tantos assuntos importantes para resolver como prioritários… mas que raio de “politiquice” agora estarem a perder tempo com este de tipo de coisas!

Oh pá, se 2 homens ou mulheres querem viver juntos ou irem para a cama… c’um raio, que vão! Ou agora é preciso tornar público esse tipo de feitos?!

Oh que caneco!....

Mas se há coisas que não gosto de ver, é um casal de namorados a beijarem-se publicamente… ali a trocarem de línguas e a apalparem-se todos!

Não gosto. Pronto!

É evidente que sou obrigada a dar asas à imaginação. É para isso que estas coisas servem. Ou não?

Até que deveria ser engraçado fazer amor numa estação de metro! Imaginem só o que seria, estarem ali dois galfarros num acto puro de love, enquanto os metros passavam para um lado e para o outro… e as pessoas espetavam o nariz no vidro…

Ai que bom que seria! Esquecíamos dos problemas de trabalho, da falta de dinheiro…. Seria um momento lindo, não apenas para aqueles dois seres, mas para meio mundo. Haveria sorrisos e suspiros maravilhosos à “hora de ponta” e não seria tão difícil andar dentro da cidade ou sair “por que horas” dos empregos!

Ai ai…

Mas… perdoem-me a franqueza: eu não acho bonito e acho pouco íntimo!

Agora imaginem 2 homens, ali a beijarem-se à artista… a acariciarem a bundinha um do outro! …

Credo!.... mas isso tem alguma piléria?!!

Pois isto não é só imaginação, não! Vi eu com estes dois olhinhos que a terra há-de comer: 2 lindas moçoilas e trocar loucos beijos e carícias numa estação de camionetas em Lisboa.

Bom… Pois é, isto parece anedota, mas é o mundo em que vivemos.

Eu até já me perguntei, se não estarei desactualizada ou não serei bota de elástico!

Chego até a perguntar-me se, um dia destes, não terei um “bac” pela minha “linda” chefe, ou pela empregada do Pão Quente onde vou tomar o cafezinho todas as manhãs!

Pois, tudo pode acontecer! E então como é?

Ai que já nem sei a quantas ando! Se calhar a minha tendência é mesmo linha feminina, e eu ando aqui a enganar-me há 40 e muitos anos!

Nunca se sabe! Tudo é possível…

É evidente que estou a brincar, porque não é desta forma que penso. Mas não deixam de ser perguntas e questões que já me coloquei muitas vezes.

E isso acontece com todos nós. Ou não?

Se é natural ou não?... Se isso é “normal“ ou não?...

Bom, eu pergunto, o que é normal ou o que é anormal?

Se analisarmos um pouco da antropologia do homem, sabemos que houve sociedades homogâmicas. Culturas que sobreviveram com essas ideias e elas fazem parte dos nossos genes.

Outro exemplo também, tem a ver com a escolha de parceiro. Na nossa sociedade, a fidelidade é um conceito de unicidade. Mas sabemos que há países em que cada homem tem direito a várias mulheres. E certamente que para eles (e elas) isso é normal.

Penso (na minha modesta opinião) que existe uma grande diferença entre ser moderno e estar actualizado.

Isto é: ser moderno, é aferir das experiências de vida. Ser capaz de entrar em todos os grupos e adaptar-se. Para tal, é preciso estar-se estruturado para fazer as coisas e não ficar com sentimentos de culpa ou de arrependimento.

Pessoas da minha geração e anterior, tiveram uma educação completamente diferente. É natural que lhes choque de alguma forma assistir a atitudes e posturas (quer pessoais ou colectivas) diferentes daquelas a que estavam habituados.

Ser moderno ou não, tem a ver com a tomada de decisão e saber-se capaz de optar com naturalidade e sem constrangimentos.

Uma outra coisa é ser-se actualizado. Estar-se actualizado, significa não taparmos os olhos ou os ouvidos. Sabermos do que se passa à nossa volta e sermos capazes de aceitar e respeitar as diferenças existentes nos outros. Termos a nossa opinião sim, mas sermos capazes de nos colocarmos no lugar do outro. Independentemente se partilhamos nos actos ou não. E também, se aquela é a opção que queremos tomar ou não.

É importante ser-se moderno? Não sei. Cada um anda como quer e faz o que melhor apraz. Podemos ser modernos numas coisas e noutras não.

É importante estar-se actualizado? Sim, é. E muito.

Podemos não ser modernos, mas termos perfil que permita o entendimento e a compreensão sobre as coisas.

Temos filhos, netos… E se um dia um filho ou neto nos apresentar um namorado do mesmo género? Ou se nos disserem que estão apaixonados por A ou B… ou por A+B?

É importante que tenhamos os nossos padrões e conceitos de vida. Mas é de igual forma importante, respeitarmos a diferença. Sermos capazes de entender e compreender que há outras formas de ser, de estar na vida.

Sermos tolerantes e não sermos arrogantes com aquilo que pensamos.

Ninguém é dono da verdade.

A ponderação, a reflexão, deve ser uma mais valia na nossa vida.

E como se diz na minha terra: “Só não mudam os burros”!

É importante que nos sintamos equilibrados e confiantes connosco próprios. Mas para isso, temos que nos sentir bem com a pele que vestimos e o papel que encarnamos nesta vida.

Assim, também é da nossa responsabilidade, ajudar os outros a equilibrarem-se e sentirem-se bem consigo mesmos.

Respeito, compreensão e tolerância são os 3 princípios importantes para vivermos em sociedade e neste mundo. Só assim, poderemos ser aceites com a dignidade que merecemos, sermos verdadeiramente amados e ainda, sabermos amar.

Ser ideal, não é ser perfeito. Mas tentar procurar o melhor caminho para a perfeição.

Tenha um bom dia!


Maria Cristina Quartas
Março 2010

1 comentário:

Piko disse...

Gostei da forma franca como abordou os vários temas; gostei do raciocínio e até da sua coragem e gostei mais ainda da forma como termina o seu texto, com a dúvida de ontem e de hoje:« Quem está certo?» ou « Quem está errado?»
Ah, e já agora também gosto muito da forma "leve" do seu português, que usa com cuidados e que me apraz registar!
Parabéns!