quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A caminho de Sta. Bárbara - 1ª Parte, por Maria Cristina Quartas

Quando as férias grandes estavam a chegar, em casa não se falava noutra coisa a não ser no mês e meio que íamos passar na aldeia.
Estar longe dos hábitos do dia-a-dia, estar em contacto com a natureza e rever os familiares mais próximos e velhos amigos, era pois, a maior alegria do meu pai. As férias eram assim, sempre motivo para bons encontros.

Embora a minha mãe não gostasse de estar isolada (“Em terras por onde nunca passou Cristo! E afastada de tudo e de todos!” - como ela dizia) e longe da nossa casa em Rio Tinto, também aproveitava estas viagens para ir visitar a sua irmã (a tia Maria) a Freixo de Numão. Terra onde a sua mãe (minha avó materna) nasceu.

Era muito forte o vínculo que o meu pai tinha com as suas reminiscências. Contava histórias antigas e dos seus tempos de menino-moço. Repetidamente o fazia, e sempre com o mesmo entusiasmo como se fosse a primeira vez.

Tinha um sentido de laços familiares muito forte. Falava de primos afastados, muitos dos quais nem conhecia, mas o seu zelo e cuidado em querer saber deles, era tão grande quanto dos familiares mais próximos.
Na nossa casa em Rio Tinto, as portas estavam sempre abertas para receber de bom agrado os Quartas, Retos, Quadrados, Reis, Brilhantes, e outros parentes com apelidos bem originais!
Na aldeia os serões eram longos, a falar nos que já partiram, a recordar momentos antigos e a actualizar as novidades da família.

Dentro dele havia um tempo vivo guardado, que o acompanhou ao longo da sua vida.
Veio para o Porto muito novo, à procura de melhor sorte do que a vida no campo - aos 17 anos de idade. E por cá ficou. Mas nunca perdeu as afeições das suas raízes. De tal forma que, apesar de ter saído tão novo da sua aldeia, conservava ainda a pronuncia da sua terra Natal, bem como pequenos hábitos provincianos.

Os meses de Agosto e Setembro eram os melhores. Os primos regressavam ao Douro, nessa altura, vindos de Lisboa e de França.
Agosto era o mês dos reencontros, das férias, dos casamentos. Setembro era o mês da apanha da amêndoa e das vindimas. Mês das festas/romarias (festas nas 7 serras). O 3º Domingo de Setembro era o eleito - dia da N. Sra. da Soledade nas Mós.

Sempre que podia ía “à terra” ver os pais e o irmão (tio Ivo). Quando isso não era possível, as cartas mantinham a boa tradição do contacto (“Querido irmão, espero que ao receberes esta, te encontres de perfeita saúde que eu, graças a Deus, estou bem…” - Era este o refrão do início das linhas que os unia).

Tinha eu 4 anos de idade, quando o meu avô (Manuel Quartas) faleceu (em 1970). Uma figura meiga e educada. Um bom homem! - Alto, magro, de bigode e sempre de chapéu.
Do que a minha memória se lembra (talvez das minhas lembranças mais remotas), tinha eu 2 ou 3 anos de idade (se muito)… estava sentada no colo do meu avô a olhar para o candeeiro em cima da mesa a observar a chama e a sentir o cheiro forte a petróleo. O meu avô estava a fazer o “pico pico sara bico” nas palmas da minhas mãos e afagava-mas com os seus dedos longos, duros e quentes. Conservo essa imagem com muita doçura e ternura.

Após a morte do meu avô Manuel Quartas, a minha avó foi viver para junto do tio Elísio Diogo (conhecido por Elísio Reto, seu tio– meu tio avô), no lugar do Castelo, junto ao cemitério da aldeia.

Passado um ano da morte do meu avô, o meu tio Ivo fez uma casa. Situada num ponto alto da aldeia. Foi das primeiras casas revestidas em cimento e pintada de branco e amarelo. Era um apogeu!
Da estrada, a sua casa era um belo Miradouro, coberto por uma ramada de uvas brancas e tintas.
A Avó, por fim, quis ir viver para junto do seu filho. E ali ficou, até aos últimos dias da sua vida.

Até 1977, ano que morreu a minha avó Augusta, as nossas férias eram repartidas entre as Mós e Freixo de Numão, em casa da tia Maria e do Tio Antoninho (conhecido com a alcunha de António Belsas).

As partilhas foram feitas. O pai ficou com a casa dos avós e com o prédio do “Bacelo”. Era um terreno longe da aldeia, lá numa encosta dum monte (situado no 3º morro antes de lá chegar). Tinha 11 oliveiras e 62 amendoeiras.

Agora tínhamos casa para passar as férias na aldeia. Era uma boa casa construída toda em pedra atravessada (tinham 60 cm de largura. Tinha cave com lagar e estábulo do cavalo, um palheiro e um pedaço de terra).
A casa ficava bem localizada. Foi construída num ponto muito alto, já fora da aldeia. Avistava todo o povoado, a estrada principal e as serras de Seixas, Freixo de Numão e Vila Nova de Foz Côa.
Situada no caminho para a Sta. Bárbara (a serra mais alta de onde se avistava as 7 serras). Era o Caminho do Vale Trigo.

O pai mandou arranjar a casa ao tio Ivo: caiou-a, arranjou o telhado, colocou janelas novas, forrou tectos, cimentou o pátio de entrada e o palheiro. Comprou camas de ferro, mesinha de cabeceira, 1 louceiro, 1 cómoda, 1 arca, 1 masseira, lavatórios de ferro com bacia e jarro, louças, cobertores da serra, etc.
Fez questão de conservar o rústico e o tradicional, mesmo com os móveis e os pequenos utensílios.
A casa tinha boas condições. E só em 1980 é que foi colocada a luz na aldeia. Não havia canalização. A bica do Terreiro era a fonte que servia toda a aldeia.

O Tio Elísio Reto combinou com o pai levar no seu burrinho 4 cântaros por semana, a troco de 20 escudos.
A água por vezes era pouca. E tínhamos de a economizar o mais possível. Uma bacia com 2 púcaros de água era o suficiente para tomar banho. Um pano bem espremido era passado em todo o corpo. A cara era a primeira a ser lavada. Depois o resto do corpo, segundo uma ordem.
A água que ficava na bacia, servia muitas das vezes para lavar pequenas peças de roupa e só depois era colocada num balde que tinha ainda outros fins variados.

Julho de 1977. As férias grandes estavam à porta. O entusiasmo não era o mesmo do que nos anos anteriores. A avó Augusta tinha morrido e o meu pai estava muito doente – tinha sido detectada uma cirrose hepática e os médicos davam-lhe apenas alguns anos de vida.
Contudo, as férias foram planeadas de igual forma.

(Continua)

Maria Cristina Quartas
Fevereiro 2010

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

"O beijo", por Maria Cristina Quartas

A escultura “O beijo” (1887), do artista francês Auguste Rodin


Hoje vamos falar sobre o “BEIJO”.

“Ora aqui está um tema de real interesse!” - Pensam os amigos que me estão a ler.
Pois bem, quem não gosta de “beijos”, mesmo que de “beijinhos” se tratem?! Sejam eles um simples toque de lábios, ou um gesto mais prolongado de sensualidade…seja dado como forma de cumprimento, ou como manifestação dum sentimento.

Talvez nunca tenhamos pensado porque é que o “beijo” é algo tão bom, tão gostoso. Porque será que este simples gesto alenta corações, faz sorrir e tantas vezes é um acto milagroso entre duas almas mais azedadas?
Dar beijinhos, receber beijinhos… alguns pessoas são verdadeiramente “artistas” na arte de beijar. E outras, nem por isso, mas mesmo assim, não ficam indiferentes a uma “boa beijoca” ali mesmo na hora “H”!

Será que há técnicas para um bom beijo? Mas afinal, o que é o beijo: o simples gesto do toque da boca ou algo mais? E porque será que um beijo roubado por vezes sabe tão bem? Porque é que os beijos, sendo eles todos dados da mesma forma (mais ou menos) têm significados e proporcionam sensações tão diferentes?

Ora vamos lá esmiuçar isto dos “beijos”, “beijinhos” e “beijocas” para entendermos melhor este nosso tão simples gesto e também ficarmos a saber apreciá-los mais e melhor!... e desta forma então, sermos capazes de surpreendermos alguém no momento exacto! Afinal, o beijo tem a sua arte, e é importante sabermos apresentá-lo consoante as circunstâncias e intenções.

Desde muito cedo, a boca é a primeira fonte de prazer. Com poucas semanas apenas de vida, além de algumas expressões faciais, provocadas pelos movimentos musculares, as papilas gustativas já estão desenvolvidas. As investigações têm demonstrado que o feto faz careta e pára de engolir quando uma gota de substância amarga é colocada no líquido amniótico. Por outro lado, uma substância doce provoca a aceleração dos movimentos de sucção e deglutição.

Aliás, o prazer do paladar continua na fase em que o bebé se amamenta através do mamilo da sua mãe. Daí para frente, o paladar fica cada vez mais apurado.

A boca é uma das partes que compõe o rosto de qualquer pessoa. Quanto a isto, não restam margem para dúvidas. A zona bocal é a última parte a adquirir todas as formas e recortes finais, embora seja a primeira a sentir as emoções iniciais da vivência.

A língua é a base de todo o paladar e a boca é uma das partes mais sensíveis do corpo e mais versáteis. Um beijo combina os três sentidos de tacto, paladar e olfacto.

O acto põe em acção diversos músculos, cujo número varia em função da intensidade: um beijo carinhoso mobiliza 17 músculos; um mais apaixonado pode chegar aos 29, segundo a tese de doutoramento em Medicina da francesa Martine Mourier, que dedicou as duzentas páginas do seu trabalho aos efeitos do beijo.

Outras revelações: a pressão exercida pode atingir os 12 quilos, os batimentos cardíacos disparam dos 70 para os 150 por minuto. Na troca de saliva são trocadas pelos menos 250 bactérias, usada 9 miligramas de água, 18 de substâncias orgânicas, 7 decigramas de albumina, 711 miligramas de materiais gordurosos e 45 miligramas de sais minerais.
Favorece portanto o aparelho circulatório e beneficia a oxigenação do sangue.
Interessante não é?

O encanto do beijo não está apenas no simples ato ou efeito de pressionar os lábios ou nos movimentos de sucção sobre qualquer coisa ou pessoa.

Vamos ver um pouco da sua história:
Os mais antigos relatos sobre o beijo remontam a 2.500 a.C., nas paredes dos templos de Khajuraho, na Índia. Diz-se que na Suméria, antiga Mesopotâmia, as pessoas costumavam enviar beijos aos deuses. Na Antiguidade também era comum, para gregos e romanos, o beijo entre guerreiros no retorno dos combates.

Era uma espécie de prova de reconhecimento. Aliás, os gregos adoravam beijar. Mas foram os romanos que difundiram a prática. Os imperadores permitiam que os nobres mais influentes beijassem seus lábios, e os menos importantes as mãos. Os súbditos podiam beijar apenas os pés. Eles tinham três tipos de beijos: o basium, entre conhecidos; o osculum, entre amigos; e o suavium, ou beijo dos amantes.

Na Escócia, era costume o padre beijar os lábios da noiva ao final da cerimónia. Acreditava-se que a felicidade conjugal dependia dessa benção. Já na festa, a noiva deveria beijar todos os homens na boca, em troca de dinheiro. Na Rússia, uma das mais altas formas de reconhecimento oficial era o beijo do czar.

No século XV, os nobres franceses podiam beijar qualquer mulher. Na Itália, entretanto, se um homem beijasse uma donzela em público, era obrigado a casar imediatamente. No latim, beijo significa toque dos lábios. Na cultura ocidental, ele é considerado gesto de afeição. Entre amigos, é utilizado como cumprimento ou despedida; entre amantes e apaixonados, como prova da paixão.

Mas é também um sinal de reverência, ao se beijar, por exemplo, o anel do Papa ou de membros da alta hierarquia da Igreja. No Brasil, D. João VI introduziu a cerimónia do beija-mão: em determinados dias o acesso ao Paço Imperial era liberado a todos que desejassem apresentar alguma reivindicação ao monarca. Em sinal de respeito, tanto os nobres, como as pessoas mais simples, até mesmo os escravos, beijavam-lhe a mão direita antes de fazer seu pedido. Esse hábito foi mantido por D. Pedro I e por D. Pedro II.

No que concerne à química do beijo:
O beijo estimula a liberação de hormonas que causam bem-estar.
As terminações nervosas reagem ao estímulo erótico e promovem uma reacção em cadeia. Ao mesmo tempo, as células olfactivas do nariz – mais próximas da boca – permitem tocar, cheirar e degustar o outro.
Beijar activa a libertação de feromonas que, são percepcionadas pelas mulheres de forma inconsciente, na escolha dos parceiros e que portanto, desempenha um papel fundamental na atracção sexual.
Então ai, se entende porque atrás dum beijo vem outro outro e mais outro… e dificilmente se consegue parar!

Relativamente ao simbolismo do “Beijo” pode ser visto pelas várias perspectivas. Pois tanto beijamos por paixão, educação, costume, mas também por respeito ou até por mera formalidade. A própria forma como beijamos varia de acordo com o que queremos expressar.
Naturalmente o beijo torna-se diferente nas suas significações segundo a zona beijada e a ocasião em que este se efectua.

Quanto ao “bom beijo” entre dois enamorados… a sua arte não está na técnica ou na habilidade do seu acto. Muito mais que isso…

Quando se trata de temas, como este, que envolve muitas teorias (e por sinal todas elas interessantes) eu gosto de ser mais pragmática. E vejo as coisas duma forma mais simples e prática (desculpem os amigos!).
Um beijo é muito mais que lábios fundidos ou línguas entrelaçadas. E até mesmo que libertação de hormonas….
Um beijo sem um olhar, sem verbalização, sem um toque no corpo... é a mesma coisa que comer um belo manjar só com a boca, sem paladar e sem cheiro. Um autentico desconsolo!...

Na minha modesta opinião, acho que se beija muito e com má qualidade hoje em dia, lá com as modernices das relações casuais e de rápido consumo… E entre duas pessoas quando o beijo não funciona!...

Acredito que qualquer pessoa pode “beijar bem” e até prender o outro com um beijo. O tal beijo fatal, que prende e apaixona!… Quer se tenha lábios grossos ou finos, língua mais ou menos ágil, boca maior ou menor…
O que é preciso, é saber criar o desejo, criar estimulo…
Olhos nos olhos, mãos suadas, coração acelerado, respiração folgante, lábios hesitantes. Tensão e emoção. Que maravilha!....

O beijo é bom sem dúvida. Mas o seu encanto está na magia, na sedução envolvente, entre duas almas que se querem tocar saboreando-se com os prazeres da volúpia e sensualidade na sua tri-dimensão: espiritual/psicológica/fisica.

Maria Cristina Quartas
Fevereiro 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

"Momentos majestosos", por Maria Cristina Quartas



Mós, Setembro de 1974


Naquela manhã o meu acordar foi diferente.

O galo da D. Susana deu os “bons dias” mais tarde e não esperou pelas pausas do silêncio para se fazer ouvir, como de costume.

O macho do Sr. Amadeu Andrade também não tinha feito o seu solene sapateado nas pedras do Vale Trigo.

Nem as ovelhas do Sr. Bichança tinham levantado o pó seco e feito a sua garraiada desafinada naquele caminho.

O sol estava preguiçoso. E até a aragem estava com menos vida.


O despertar da aldeia, desta vez foi após as 7 baladas da Ave-Maria da igreja do largo do Terreiro. Algo diferente se passava. Sentia que algo de estranho teria ou estava para acontecer.


Um pouco intrigada, levantei-me sem os rituais do costume.

Antes de calçar os sapatos bati um no outro e sacudi-os bem (não fosse algum lacrau meter-se lá dentro e seria fácil não o ver – como a mãe sempre alertava).

Entrei na sala ao lado, que tinha o alçapão e tecto forrado. E pressenti a presença da minha mãe ali junto à porta que dava para o pátio e para a cozinha.


A mãe estava a arranjar peixes do rio, trazidos pelo Sr. Idérito, do rio Douro, no dia anterior ao fim da tarde.

Em pé, junto ao muro que dava para o prédio ao lado e ficava à face do caminho do Vale Trigo, mergulhava numa bacia as postas ensanguentadas na água gordurosa avermelhada e cheias de escamas, enquanto impacientemente algumas abelhas, muitas moscas e varejas observavam a oportunidade de lhes pousar.


Na sala, havia uma mesa grande de madeira coberta por uma toalha de plástico comprada no “sótão” do Sr. José Castedo. No seu centro, havia uma cafeteira da cevada a fumegar, rodeada de algumas canecas com o desenho do cavalinho. Uma caixa de Lorenin e outra de Lexotan. Um enorme pão de centeio da Horta e meio pão de 4 cantos de Padronelo; um pedaço de queijo de cabra; 1 pacote de Planta; um prato com bêberas (figos pretos), junto a 2 grandes cachos de uvas moscatel dado pelo Sr. António Calça numa das suas passagens ali no caminho do Vale Trigo em direcção ao rio Douro.


Meti a mão por entre as fitas plásticas coloridas da porta e aproximei-me da minha mãe.

Dei-lhe os “bons dias” e perguntei pelo meu pai.

“Bom dia filha. Dormiste bem? O paizinho está ali em cima na Corte Queimada, atrás daquele palheiro. Eu bem lhe disse para não comer tantas uvas ao jantar… passou mal a noite toda e agora foi ali em cima para estar mais à vontade… Eu também não estou bem, contínuo com esta dor de cabeça. Falta-me o ar… Este tempo dá cabo de mim. Este ar seco já há 3 dias ameaça mau tempo! Quando ele rebentar, vai dar cabo disto tudo. O povo assim nem vai às vindimas, nem o pastor sai com o rebanho. Eles conhecem bem o tempo!… e é disso que eu tenho medo. Ainda cai aqui algum relâmpago e fica p’raí tudo a arder…. Não temos água… O tio Elísio até já avisou, que só para amanha é que nos traz 2 cântaros. A fonte só deita um fiozinho de nada. As mulheres estão lá a noite toda à espera de vez. Temos de poupar a pouca que temos. Eu queria ir embora, mas o paizinho adora isto! Não sei o que estamos aqui a fazer! Se ainda estivéssemos em Freixo!.... A tia Maria quer que lhe faça uma saia duma fazenda que lhe dei para aí há 10 anos… e há 10 anos que lhe prometo que lha faço!”


Sentia a minha mãe nervosa e angustiada.

Era sabido que ela não gostava de estar nas Mós. Mas a sua ansiedade era de tal forma que, sem querer, transpunha para mim toda a sua aflição e nostalgia.


As trovoadas eram medonhas… E mais ali, junto aos pés da Sta. Bábara, em que os montes formavam um cova funda e abrigavam os ecos tortuosos dos relâmpagos de todos os montes ali em redor.

Naquela altura do ano, estava tudo seco. E não havia qualquer filtro para os raios do trovão. E já não era a 1ª vez, que ficava a arder um palheiro ou um campo com erva bravia, por causa dos incêndios provocados pelos relâmpagos.

Em redor da aldeia, era difícil lá chegar. Não havia caminhos. Não havia bombeiros. Não havia água.

E se o pai piorasse ou se sentisse mal? Quem o levaria a um médico? Quem estaria disponível no povo? Andava tudo à vinha e à amêndoa! O único médico que havia era em Foz-do-Coa. Que ficava a 40 Km. Tínhamos que ir a Freixo de Numão. Era perigoso com o mau tempo andar de carro naquelas estradas muito estreitas e cheia de curvas, que muitas vezes ficavam interditas com os barrancos das vinhas desfeitos com as chuvas e as trovoadas.


Sentia a angústia, preocupação e completamente indefesa…

Queria vir-me embora. Ou então ir para Freixo. Lá sempre haveria 1 táxi, do Sr. Manuel. Era uma aldeia plana, mais alegre, mais airosa…

E eu sentia-me confusa…


Nisto, de cima do socalco, no terreno em frente, o meu pai chamava-me: “Rustininha, anda cá num instante e traz-me essa vara que está aí na sala junto ao alçapão e um saco. Há aqui ainda boa amêndoa…”

Aquele Rustininha!... Meu pai não era nada de diminutivos. E raramente me chamava assim. Mas esta era a sua forma afectuosa de trato para comigo.

Um pouco contrariada e aborrecida, lá fui buscar o que o meu pai me pedira.

Subi o barranco do solo granulado e, por entre torrões de terra, pedras, ervas secas e cardos (unhas de gato), jaziam muitas cascas frescas aveludadas e verdes. Meias escondidas, algumas amêndoas espreitavam.


Com a vara, o meu pai fazia descobrir aquelas que se escondiam por debaixo das pedras e das palhas.

Parava em cada amendoeira e ficava a olhar para os seus ramos…

Algumas ainda eram do ano passado… outras estava ali à espera de serem varejadas… No "rabusco" sempre se encontra muita amêndoa ainda.

“Vá, apanha esta!”…

O toque do pau era assertivo e seco. No tronco certo.

As amêndoas saltavam longe. Era preciso atenção aos gestos do meu pai. Eu fitava a amêndoa e acompanhava-a no seu percurso. Em pequenas corridas de passos ligeiros ia atrás dela.

Umas vezes caia em cima da terra revolta, outras no meio dos cardos e das pedras…Saltitava, e aninhava… saltitava e aninhava…repetidamente.

E enquanto eu saltitava, atrás das amêndoas e as metia dentro do saco ia retirando-lhes a “saia verde”, que algumas vezes já estava solta, outras estava presa e colada. Era uma pele grossa, dura, seca e verde aveludada.

Outras vezes havia, que no meio daquela azáfama, algo me chamava à atenção “Paizinho que é isto? Parece um sininho! Olha, e faz barulho!...”.

Meu pai ia explicando, as plantas silvestre que conhecia (rosmaninho, orégãos, zimbro, fiolho, alfazema, camomila, malvas, trovisco, carqueja, etc.) e a sua função para atrair os animais…


No meio daquela terra árida e aparentemente sem vida, existia um mundo fantástico de coisas variadas em miniatura: pedras brancas em forma de cristais… pedaços de micas laminadas que pareciam escamas prateadas… plantinhas com as mais diversas formas e tonalidades… formigas enormes e com asas… borboletas de todas as cores… pequenos répteis fugidios… libelinhas, louva-a-deus …. e dezenas, centenas de gafanhotos enormíssimos a saltitar na sua liberdade nos nossos pés (algumas maiores, saltavam à minha altura…) que mais pareciam fazer cópia dos meus movimentos.


A apanha da amêndoa, era de facto extraordinária, não só pela forma como ela é colhida mas pelo contacto que se tem de perto com o micro mundo da Natureza selvagem.


Descontraído, calmo, sereno… o meu pai assobiava com os lábios entre os dentes e cantarolava modinhas antigas da terra…. “O carrapito da Dona Aurora era postiço soubesse agora…”. “A mãe chamou pela Amélia, e a Amélia disse que já vinha. Oh Amélia, Oh Amélia! Senhora minha mãe já lá vou…”.

Eu ficava a olhar para ele… sentia-o feliz. Muito feliz!


De vez em quando parava.

Queixo em cima das mãos… uma em cima da outra… sobre a ponta do pau espetado na terra… ficava com os seus olhos muito azuis, muito grandes e brilhantes, a olhar fixo para o chão… Outras, com um olhar profundo e distante para lá longe dos montes….

Fazia os seus monólogos em voz baixa, monocórdica e arrastada: falava do seu pai, do seu avó, dos tios… Eram palavras soltas. Palavras desconectadas e sem sentido….

E eu sentia-me confusa…


Numa dessas suas paragens, vi-o fixo a olhar um ramo mais alto.

Olhei também a ver se via (ou se entendia) o que ele estava a ver…

Uma enorme amêndoa! Uma como eu nunca tinha visto: em forma de um grande coração com 3 cabeças….

Um pequeno toque muito firme e seco não chegou. Esta, só no 3º toque – forte e certo.

Ali mesmo à beira, ela cai pesada…”POC”

Àquela, ele fez questão de ser ele apanhar.

Em pé, junto a ele… os 2 a olhar a amêndoa. Pousou-a no meio da palma da sua mão (uma mão grande com unhas alongadas perfeitas… uma mão muito bonita e asseada…)

Ficou a olhar: primeiro, um ar sério. Depois um lindo sorriso! Uma boca grande e bonita. Uma covinha do lado esquerdo que se encolhia e sorria também…E olhos… os olhos grandes, muito azuis com muito brilho e cheios de água…

“Ai menina… eu não via uma amêndoa destas há muito muitos anos. Talvez há 50 anos…… e lembro-me do meu avô, teu bisavô paterno me explicar: estas amêndoas são raras. São amêndoas da Trovoada. A árvore que der desta amêndoa levou com um raio de trovoada em cima. Quem encontrar uma, fica protegido do perigo. Esta árvore deve ser muito antiga… Então!...já me lembro dela e era mais novo que tu!... já lá vão muitos anos!... Pega, guarda-a para ti. Ela irá proteger das trovoadas! Nada de mal acontecerá onde estiveres!...”

Apertei-a na mão e nunca mais a larguei.


De repente, o céu começou a ficar cinzento.

O vento era abafado e quente. Lá longe, para lá de Seixas, o céu era noite escura…

Como é que ele sabia que o “mau tempo” vinha ali?…

Eu sentia-me confusa….


A determinada altura, ouço-o em tom de voz mais elevada: “Vamos menina, não tarda que ela esgace aí com toda a força… vamos para casa… vamos tomar o pequeno-almoço… Corre!”


Entramos na sala e sentamo-nos.

A mãe suspirava. Calada.

O pai com um ar calmo, tranquilo e maroto!

Para mim era confuso: a mãe triste e o pai alegre…


O pequeno-almoço era a refeição que melhor me sabia.

O pai pegou no pão da Horta (tinha chegado no dia anterior na camioneta, que apitava pela estrada até ao Terreiro…)

O pão ocupava o braço inteiro. Uma ponta na mão, a outra junto ao peito. A navalha que trazia no bolso era afiada… e rasgou uma fatia perfeita…

A cevada ainda estava quente, mas já não fumegava.

A mãe andava dentro e fora… o barulho das fitas na sua passagem era repetitivo…como se andasse à procura de “não sei bem o quê”.

“Fernanda, senta aqui mulher… nada vai acontecer. Nunca aconteceu e meus pais sempre aqui viveram… e na altura o povo era só à beira da Cardeira e no Castelo praticamente… Tens cada uma mulher! Olha só o que encontramos. A miúda que te mostre…”

Naquele preciso momento, a lâmpada da sala piscou 2 vezes consecutivas… depois mais outras 3 com intervalos incertos… A mãe ficou muito séria a olhar para a lâmpada e colocou a mão no peito “Ai Jesus!”

O pai ficou imóvel com um pedaço de queijo na mão e que ia meter à boca…


Sem saber o que ia acontecer, apertei forte a mão que tinha a amêndoa…. E nesse instante…. Ouve-se um estouro que ecoou durante alguns segundos duma forma continua e explosiva.

A lâmpada apagou-se. E ficou um silêncio absoluto na sala com os ecos do silêncio apavorantes ainda a repercutirem no temor que causou .

“Mesmo aqui em cima de nós” Diz o pai.


A mãe fechou a porta da sala e colocou a tranca. Com ar de pânico disse “Cristininha e Nelinho, vamos para cima da cama…”

Fomos os 3 para cima da minha cama. Enquanto o meu pai estava junto da janela a olhar os relâmpagos.


Santa Bárbara bendita, que no céu está escrita. Com papel e água benta nos livre desta tormenta“. Foi das poucas vezes que vi a minha mãe a rezar.

A trovoada esteve ainda para cima de uma hora a rebentar tempos sem fim… enquanto a minha mãe nos contava, que quando tinha a nossa idade, estava uma vez em Moncorvo, em casa da prima Alice, e o que lhes valeu, foi irem para cima da cama… porque os cobertores da serra não são condutores da energia das trovoadas.

O meu irmão dava risadinhas e sussurrava-me “É Jesus a ralhar-te!”…


Sentia-me protegida pelo meu amuleto, mas ao mesmo tempo confusa.

Porque de facto, há coisas que são preciso muitos anos para as entender…


A festa durou algum tempo. O tempo suficiente para rebentar em todos os montes. Medonho e soberbo sentir o poder da natureza na sua forma mais bruta e assistir aos mais belos feches de luz e cor no céu mesmo em cima dos montes. Um autêntico fogo de artifício da Natureza.

Sentia-me pávida e atenta ao barulho da trovoada e às histórias da minha mãe… Meu olhar era parado na janela que se avistava os montes do volfrâmio de freixo de Numão, à espera do próximo relâmpago e dos estrondos que se repercutiam. E mesmo assim assustava-me quando vinha mais um…

Fortes clarões no céu a cair nos montes… Via nitidamente os raios… enormes! Em forma de “Z” e de “Y”… eram seguidos…

O céu era coberto de nuvens escuras, pretas. Estava escuro, de noite. Os relâmpagos iluminavam num forte clarão amarelo… era uma cena surreal. Um cenário sombrio que se iluminava com luzes de ribalta de todas as direcções…

Raios, faíscas fortes, clarões intensos, contraste de luminosidade … juntamente com estrondos infernais….

Sentia-se o cheiro e o sabor da humidade quente no ar. Eram fortes. Cada vez mais forte.

Primeiro umas pingas grossas. Caiam na terra seca e árida e formavam bolas de pó… A chuva começou a aumentar…. Caiam pingas fortes, mais e mais….

Os relâmpagos eram já mais espaçados. E aos poucos e poucos ouvia-se entoando-os mais longe, nos outros montes…

Juntamente com eles, as nuvens foram arrastadas…


O pai entrou no quarto e disse “Já passou. Lindo o espectáculo!”.

Eu e o meu irmão saltamos de cima da cama, e fomos a correr para o Caminho do Vale trigo.


“Vamos ver quem chega primeiro” dizia o meu irmão.

Corríamos então, para dizer “adeus” à trovoada e sentir a beleza daquela natureza, agora pintada com cores mais vivas.

Subimos à Corte Queimada porque era um ponto mais alto.

Uma enorme serenidade e acalmia!...

O ar era fresco e aromatizado com o cheiro de todas as ervas silvestres dali do monte…

O sol brilhava nas cores resplandecentes da natureza – os verdes mais verdes e os castanhos mais castanhos…

Eu continuava com a amêndoa na mão a olhar na plenitude e a sentir a natureza com todos os meus sentidos mais despertos. O meu irmão sentia-se eufórico e corria dum lado para o outro à procura dos pequenos rastejantes escondidos por baixo das pedras…


Era já meio dia. Dum dia de Setembro, ali nas Mós.

Aos pouco e poucos, começava-se então a ouvir o povoado. Como acontecia na magia de todas as manhãs.

E num instante, se sentia de novo o barulho da vida do povo na aldeia.


Mais lindo que qualquer amanhecer, mais bela que qualquer madrugada… Aquele momento tinha sido fantástico. Soberbamente fantástico!

E então, quando o mau tempo já ia longe, e o sol sorria no céu a zul… Um enorme arco-íris se pintava no firmamento. Grande. Tão grande que abarcava duma ponta à outra todas as montanhas em redor…

Ali aos pés de Santa Bárbara, numa plateia privilegiada, eu sentia-me a assistir ao mais belo espectáculo da Natureza.

Foram precisos todos estes anos, para entender algumas destas coisas simples. Como por exemplo: porque é que em cima da mesa do pequeno almoço havia sempre uma caixa de Lexotan; porque é que o meu pai adorava tanto aquela aldeia; porque é que o meu pai me chamou para ir apanhar a amêndoa com ele quando a minha mãe estava a falar comigo; e porque me contou a historia da amêndoa protectora da trovoada…

E só hoje compreendo também, porque é que o meu pai segurava as mãos em cima da vara e olhava para lá longe… porque é que o meu pai tinha os olhos com lágrimas ao lembrar-se do seu pai Manuel Quartas e do meu bisavô.

Hoje entendo o que eu sentia naquela altura e o porque me sentia confusa em tantos momentos.

Porque de facto, há coisas que são preciso muitos anos para as entender.

Maria Cristina Quartas

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

"O mistério da noite e dos prazeres da alvorada". Por Maria Cristina Quartas


Ainda de olhos fechados puxei a roupa para junto do pescoço. De novo aquele cheiro a naftalina e linho invadiu os meus sentidos e, junto com eles, a imagem da arca velha no fundo da sala…
Era uma arca mágica. A arca onde se guardavam alguns antigos objectos da família, os cobertores pesados de lã da Serra da Estrela e algumas mantas feitas de retalhos da tradição transmontana.
As noites já começavam a ficar frias em Setembro. E junto aos velhos lençóis de linho, dois cobertores eram bem necessários!
Mas aquele cheiro dos cobertores… preservava alguns segredos daquela linda terra e dos meus sonhos secretos…

A casa era de pedra. Umas pedras sobre as outras e, por entre os seus orifícios, habitava o pó seco, teias de aranhiços, lacraus e outros animas, como os “salta rostos” (sardaniscas) que povoam naquelas regiões secas.

O pai tinha mandado o tio Ivo caiar as paredes dos quartos e da sala. Fez questão absoluta de conservar aquelas janelas originais (em ferro com quadrados em vidro). Do lado de dentro, duas enormes portadas de madeira, que tinham como sua segurança uma trave grossa e lisa de madeira.

O chão era de tábuas, suspensas em colunas e vigas de troncos grossos de árvores antigas. E havia um alsapão que dava para a parte debaixo da casa (cavada no meio das rochas), onde havia o recanto para o cavalo (um espaço limitado com muro baixo em cimento) e o lagar do vinho.

O tecto era o próprio telhado. Uns troncos enormes se cruzavam e sobre eles assentavam telhas cor de fogo que tinham gravado “Fábrica de Cerâmica de Ermesinde”. Era alto e formava um cone. Um cone que cobria as 4 divisões da casa. Havia 3 que tinham sido privilegiadas com forro. A outra, a mais ampla, não tinha essa protecção pois era um local por onde a casa respirava e entrava a aragem fresca da noite…
Os meus pais dormiam no quarto que era dos meus avós. O meu irmão dormia no outro porque tinha forro também. E eu dormia precisamente naquele em que se viam as telhas, numa cama de ferro pintada em azul.



A cama ficava junto à parede que separava o quarto da rua do Vale Trigo. Apenas um pouco afastada da parede, por causa dos bichos (como dizia a minha mãe).
Eu, através da parede, da janela e do telhado sentia o mundo lá fora. E nas minhas fantasias de criança, imaginava que no meio da escuridão da noite, me transformava em feiticeira e entrava pelas trevas a dentro… sobrevoava arrojadamente os montes, os vales e o rio Douro que rasgava aquelas maravilhosas paisagens do Alto Transmontano.

Ali naquele quarto ouvia o silêncio da noite. E nos meus poderes de feiticeira, tanto era ave de rapina, como uma estrela cadente.
Ali naquele lugar, onde apenas o luar iluminava os caminhos, e desenhava os contornos das sombras cinzentas… onde o mundo passava de lindas cores a preto e branco… o céu estava mais perto da terra.


Um enorme feixe de estrelas. Uma longa estrada, chamada Estrada de Santiago (Via láctea). Milhares de estrelas, milhares de milhões de pequeninos pontos a brilhar no firmamento …. E, quando se olha, tem-se aquela sensação, que o céu vem ao nosso encontro e nos cobre de estrelas… É fantástico!
Cintilam, tremem, piscam…uma ou outra apenas brilha intensamente lá no alto. E quando se observa mais atentamente, há um forte clarão que deixa um rasto… e aí vê-se uma linda cauda brilhante intensa que desaparece atrás daquele astro – um cometa.

As portadas da janela ficavam abertas. E eu, através dos vidros, difundia-me naquela magnífico quadro onde me perdia no firmamento.

Noutros momentos… no aconchego das naftalinas entretinha-me a tentar decifrar os pequenos barulhos do monte - o piar dos morcegos e dos mochos que visitavam o telhado e as amendoeiras em redor; o barulhinho dos pirilampos e dos grilos no caminho do Vale Trigo; os ruídos dos ramos e das folhinhas das árvores; os rumores dos ventos no monte e no telhado; os zumbidos dos insectos no ar e os zunidos do próprio silêncio da noite.

Ali naquele quarto, assistia à mais bela sinfonia nocturna tocada com todos os sons da natureza! Era um segredo meu, que só eu sabia. Porque só eu sentia… E era assim que adormecia.

Era o prémio (talvez) que eu recebia, por não guerrear com o meu irmão o seu quarto (que tinha forro, um lavatório em ferro de pé alto, com bacia de esmalte azul escuro e um jarro de água. E até, um pequeno espelho tinha...

Já alta a madrugada, ainda meia confusa, das aventuras da noite mágica, mantinha-me inerte no despertar para um mundo real.

De olhos fechados sentia-me amparada no conforto da minha cama. Os cobertores de lã, os lençóis de linho grosso, o colchão de espigas de cereais e as almofadas de folhelho de trigo…

Pelas frinchas da porta da varanda, das telhas e das janelas, entrava a aragem matinal. Um cheiro intenso a restolho intensificado pelo orvalho da noite.
Juntamente com a suave brisa, entravam os primeiros murmúrios da vida da aldeia. Ouvia então, um compasso pouco apressado dum “toc toc, toc toc, toc toc” … e uma voz humana dizia “A
rre macho! Vamos lá… “.
Era o Sr. Amadeu Andrade. Passava ali todos os dias, mal o sol se levantava. Ia ao “prédio” (o Geraldinho) apanhar amêndoas, ou apanhar uvas, nos terrenos que ficavam perto do rio Douro…

E aos poucos e poucos, o “Arre Macho!”, “Toc toc”…. Ia ficando mais afastado.

Vindo da aldeia, um “có…córócóóóóóóóóó….” dava os primeiros “bons dias”. O galo da D. Suzana era um galo madrugador!

Eu, continuava inerte… à espera de mais.

Nisto, primeiro parecia ouvir um “tlim”… depois um outro “tlim,tlim”… e mais outro “tlim tlim tlim”… depois já não parecia. Era.

Um rebalho de cabras e ovelhas aproximava-se.
Um “mééééé” mesmo ali junto à parede… outro “mééééé” mais além. Outro e mais outro… e ao mesmo tempo o tilintar desordenado dos guizinhos misturava-se com os “mééééé” “be be be… “.

Um cão ladrava… e o pastor (Sr. José Bichança) batia com o cajado nas pedras enquanto dizia “ô, p’rá li ô”, “Anda badana! Tchq …tchq!” “Ah, excomungada!” P’rá li ô”….
Era uma sinfonia completamente anárquica. Em que havia ali um momento auge em que me sentia perdida no embalo da confusão daquele rebanho, e dos cheiros intensos do pó levantado pela caminhada do rebanho …. a poeira de terra seca e de “cheiro de ovelha”.

E, aos poucos e poucos ia ficando afastada daquela torrente. E duma forma lenta sentia o gado a afastar-se para bem longe…

Um silêncio intenso voltava para sentir de novo o cheiro do restolho e o cantar do majestoso Galo!...

Os barulhinhos da alvorada e do dia começavam a clarificar e a intensificar-se.
O sino da igreja do Terreiro dava as 7 horas da manhã com o som da Ave Maria…

Era nessa hora então, que me vinha à memória que estava nas férias grandes da escola, na aldeia do meu pai. E que dali a poucos dias, as rotinas da escola começavam.

Duma forma suave abria os olhos e olhava para a mala velha no fundo da sala. Era o momento de recolher todos os meus segredos.

Já desperta, levantava-me… e abria, de par em par, as portadas da varanda.

Dali, avistava o povoado todo… E em frente uma grande serra dividida em diversos retalhos de terrenos (os prédios) de amendoeiras e oliveiras.

Um pouco debruçada, com a cabeça à luz clara do dia, respirava fundo os aromas da terra fresca, da erva seca e os cheiros a fumados vindo do povo, enquanto avistava lá para longe, onde antigamente eram as minas de volfrâmio de Freixo de Numão….

Sentia-me feliz. E dava um sorriso sereno e muito íntimo. As histórias eram muitas a contar… Mas eu continha as mais importantes e que só eu sabia – aquelas que eu vivia em segredo com o mistério da noite e com os prazeres da alvorada na linda aldeia das Mós.



Maria Cristina Quartas
Janeiro 2010

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

“A panela de 3 pernas”. Por Maria Cristina Quartas


A propósito duma notícia do “Café Portugal” de 2/Janeiro, intitulada “Panelas de ferro à lareira voltam a ser utilizadas na Guarda”…


Entre montes e vales, numa terra árida e rochosa, de pó seco e trovoadas majestosas… de chuvas, de ventos fortes, de granizos e neves… de amendoeiras em flor e campos de papoilas e cardos agrestes… onde Sta. Bárbara é padroeira e habita lá num alto…fica uma linda aldeia chamada Mós.
As Mós do Douro pertence ao concelho de Vila Nova de Foz-Côa e distrito da Guarda.

Recuo 40 anos… uma saia às pregas de pano azul escuro. Uma fazenda grossa, restos duma confecção que a minha mãe fizera dum casaco comprido para o meu irmão mais velho. Lembro-me particularmente dessa peça de roupa, porque era nova. A mãe tinha-a feito de propósito para a estrear naquelas férias na aldeia.
Sentada num banquinho pequeno de madeira. E enquanto o calor penetrava por entre a malha das roupas grossas e eu sentia o meu corpo a absorver o quente que me evadia…eu passava as minhas mãozitas cândidas e macias, na textura aveludada da saia nova, deixando difundir os macios…A saia fazia parte de mim, porque era minha e feita para eu a estrear naquele dia.
Ao meu lado estava o meu irmão Orlando. Olhos grandes e brilhantes, escondidos por trás de umas grossas lentes, impacientes e traquinas…observavam os meus gestos. E num tom de voz sussurrada e provocadora, dizia “Olha, vês…as minhas botas. São bonitas, não são? O paizinho deu-me botas e a ti não!...”. Enquanto me inquietava com as suas coisas de menino, ia olhando para mim e ao mesmo tempo para os seus pés, que os acompanhava remexendo-se, exibindo-se!...

O avô Manuel Quartas estava ali também. Sentado, quieto, calado de olhos postos em cima das brasas, enquanto e a minha avó numa posição curvada mexia a sopa, na panela de 3 pernas, com uma colher de pau comprida e a base em forma de concha.
Ouvia-se o estalir da madeira velha a queimar… o lume era vivo e formava uma delongada nuvem alaranjada… as cinzas eram bravas e via-se pequenos pedaços de madeira em brasa por entre o borralho cinzento e cinzas escuras….

O calor era forte. Tão forte, que só de pensar, ainda o sinto nas minhas bochechas, em volta do rosto junto à raiz dos cabelos, nas minhas pernas, nas minhas mãos…
Não havia electricidade na aldeia. Os candeeiros eram a petróleo. Havia um enfarruscado pendurado num espeto de ferro, cravado na pedra enrugada e nua da parede velha. Estava sempre aceso fazendo companhia às chamas da lareira e assistindo às conversas despreocupadas que ali se faziam. Lembro-me de olhar para ele e sentir que ele tinha vida nos movimentos trémulos da sua ténue chama e dos cheiros que emitia do petróleo queimado. E na hora de deitarmo-nos, o avô levantava a chaminé de vidro e apenas com um sopro o fazia recolher também.
O lume não podia morrer. Enquanto a avó tratava da sopa, o avô lá se ajeitava com o fogo: ia revirando os troncos em brasa, remexendo as brasas e de quando em vez, atiçava as chamas com o foles… Também era das suas funções aconchegar as faúlhas que se espalhavam, com uma vassourinha feita de giestas secas.

E … ali estava ela – a panela de 3 pernas. Preta, redondinha, forte, resistente... sustentada pelas 3 elegantes pernas - altas e finas.

Sinto o cheiro e o sabor da sopa acabada de fazer naquela panela de ferro. Era uma sopa grossa, de couve galega, feijão vermelho, arroz, massa, batata e um bocado de carne de porco gorda... O seu segredo, estava não só forma como era cozida (na panela de ferro na lareira e duma forma lenta), a água pura da nascente, e haviam mais 2 coisas interessantes: a couve era esfarripada à mão (porque o metal altera o sabor da couve - dizia a minha avó) e a batata era esmigalhada ao garfo depois de tudo cozido. Lembro-me duma travessa em esmalte pintada, com rebordo a azul-escuro e com um desenho estampado... muita velha. E o garfo, era preto, torto e com uns dentes em metal velho muito compridos...

Velharias rústicas que guardo na memória e hoje nada é comparável - cheiros que ficam, sabores que entram... recordações ímpares!...
Juntamente com toda essa recordação, lembro-me ainda de ver (como se fosse agora), a minha avó e meu avô sentados num mocho (bancos baixinhos em madeira), junto à lareira. Ou estavam a rezar, ou a contar histórias antigas.
Eu sentava-me ao pé deles com o meu irmão (4-5 anos) e, enquanto os ouvia, ia gravando duma forma profunda os cheiros e as sombras que por ali se faziam. A lareira, servia para fazer a comida; fazer a lavagem para o porco (um caldeirão preto enorme a cozer restos de comidas, frutas, legumes, pão seco...); aquecer água (havia sempre uma outra panela com água aquecida); nos aconchegar nas velhas histórias e nos saberes dos mais velhos; nos aquecer daquele frio cortante e iluminar aquele espaço.

O lume, o crepitar da madeira a queimar, os cheiros, as sombras, as histórias... tudo era um mundo de fantasia. Uma fantasia real. Havia um mistério, uma saudade, uma nostalgia, e ao mesmo tempo sentia muito aconchego, ternura e protecção. E tão forte e intenso eu tudo aquilo sentia que, mesmo sem saber, eu sabia que aquele momento ficaria em mim guardado.
Hoje, a travessa não existe, nem o garfo, nem a panela de 3 pernas, nem o candeeiro, nem aquele lume... mas existem as histórias, as imagens, os cheiros, os sentimentos…tesouros que guardo em baús edificados no meu Templo Interior.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

“Sublimando” - Momentos de reflexão. Por Maria Cristina Quartas






“Viver não é necessário. Necessário é criar."
(Fernando Pessoa)





Final de Dezembro…
É chegado o momento mais importante do ano para mim: Fim duma etapa, início de outra…
Sempre aproveito para fazer um balanço do ano que fica para trás. E dos pontos mais relevantes, tiro uma ilação, que normalmente vai ser o ponto forte no ano seguinte, onde irei mais investir e trabalhar (aperfeiçoando) juntamente com outros aspectos, (não tão menos importantes da vida).
E como já vai sendo uma tradição de há alguns anos a esta parte, gosto de partilhá-la com os amigos.
E por isso, aqui estou….
É um pouco difícil escolher um ponto relevante de 2009. Mas, opto por escolher um mote chave, que me parece enquandrar-se de uma forma generalizada, em tantas coisas que aconteceram e me marcaram.
Por isso, escolhi esta frase de Fernando Pessoa: “Viver não é necessário. Necessário é criar."
Como previa em 2008, este ano foi mais um longo período de aprendizagem, reflexão… muito orientada para aquilo que eu chamo de “reconstrução interior” (pelas razões conhecidas…).
Pois bem, há um aspecto muito interessante que denotei este ano. Um aspecto que se realçou em mim (duma forma muito natural), em favor de alguns sentimentos mais dolorosos e menos agradáveis. Como a angústia, a ansiedade, a frustração – o sentido de humor.
A melhor forma de se lidar com as situações mais difíceis é usar o humor. O sentido bizarro e caricato das coisas dão-lhe um aspecto completamente diferente. É uma forma de descontrairmos, de descentralizar a atenção e preocupação, criadas em determinados momentos. E que tanto nos impedem de reflectirmos com assertividade. Rir faz bem e é contagiante.
A boa disposição liberta-nos, desbloqueia-nos. E muitos problemas que nos pareciam complicadíssimos, passam a ser meros desafios, que serão muitas das vezes, ultrapassados duma forma (diria) quase lúdica.
Penso que o humor é uma arte. Ele aprende-se e aperfeiçoa-se.
A alma do humor é a CRIATIVIDADE.
Partilho um pequeno texto, que escrevi há pouco tempo:

“A Criatividade é uma das fórmulas mágicas para o "não-envelhecimento". Nas mais variadas coisas da vida podemos ser criativos. Desde a cozinha, no emprego, na decoração da casa, na arte, na cama (lol), et cetera et cetera… nas relações intra/inter-pessoais.
A Criatividade é a lufada que anima, incentiva, motiva o nosso dia-a-dia... e a Vida. É o arco-íris na nossa existência.Existe uma forte correlação entre o QI e o potencial criativo. A Inteligência é a capacidade de resolução de problemas de acordo com as aptidões de cada um. E a Criatividade é a capacidade que o indivíduo tem de resolver problemas procurando novas soluções, ideias originais e inovações utilizáveis. Por sua vez, esta tem como sustento a imaginação.
Dar asas à imaginação é pois, fazer desencadear todo o processo que permite desenvolver, exteriorizando as nossas aptidões para a Criatividade e Talentos. Um bom exercício para melhorar a Inteligência.

Há quem defenda que a Criatividade tem a ver com o processo de desenvolvimento cognitivo na infância. Outros autores afirmam que é um factor hereditário.
Bom, contudo, sabemos que todos nós temos essa aptidão, e essa faz parte integrante do Homem (e que se distingue dos outros animais, por isso também).
Uns mais, outros menos... todos nós podemos ser criativos de alguma forma. E isso é um treino que podemos fazer. Aprender a fazer.
Sabemos também, que ao desenvolvermos a Criatividade em nós, estamos a desenvolver as capacidades de humor, optimismo, sentido estético (belo, agradável, harmonioso)… E se, mentalmente, cultivamos esse estado de motivação e entusiasmo, é obvio que o nosso corpo vai recepcionar e emitir a sensação do bem-estar, do aprazível.Sem explicações psicofisiológicas… sabemos que, quando somos criativos, sentimos relaxamento muscular, o sangue a circular mais depressa, o coração a bater mais vivamente e duma forma harmoniosa… é pois psicossomático sem dúvida alguma.
Quando somos criativos ou pelo menos, quando nos desempoeiramos e dispomo-nos para esse lado das coisas, ficamos mais bonitos, mais alegres, mais sorridentes, mais felizes. Ficamos com um brilhozinho nos olhos, a pele mais sedosa… Diria, apaixonados! (ou pelo menos, com alguns dos seus sintomas!!!)Em Psicologia, mais propriamente em psicoterapia, é muito usada a Arteterapia, musicoterapia. São técnicas expressivas, que levam o indivíduo a “soltar-se”, a exteriorizar o que verbalmente não consegue fazer.Costumo aconselhar, como remédio caseiro, quando a pessoa está mais depressiva ou mais triste, a pegar numa folha de papel e escrever, ou pintar…. Ou então, por musica a tocar e balançar o corpo ao seu som. Fechar os olhos e deixar-se levar…
Mozart, Van Gogh, Schumman, Sting, Peter Gabriel, W. Churchill, Carlos VI o Louco, Rei de França, Kurt Cobain, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Jim Morrison... (com Perturbações de Bipolaridade…)…tantos e tantos outros, que sentiram o azedume da vida e nos momentos mais dolorosos, como meio de alívio e como bálsamo, libertaram o seu instinto através da sua Criatividade.
E a Arte o que é, senão a forma mais pura de expressão com Criatividade, numa linguagem instintiva e genuína?!Um bom desafio para 2010!
E podemos começar já, com os postaizinhos de Natal e as prendinhas para o sapatinho.
- um poema ou verso dedicado à pessoa;
- um frasquinho de iogurte ou café…que ia para o lixo… com uma flor pintada/uma borboleta;
- uma pega feita de croché/renda, ou pano duma camisa velha… pespontado em volta com lã colorida;
- rolos de papel higiénico enchidos com drops e bombons… embrulhado em papel celofane… e um laçarote de fita colorida (para as crianças…);
- biscoitinhos caseiros (até está bom tempo para isso) numa caixinha velha forrada com papel de prata… e por fora uma aguarela feita pelos nossos filhos;
- compotas feitas com frutos da época dentro de frasquinhos que se compra na loja dos Chineses… e pôr os maridos ou namorados a partir nozes/avelãs/amêndoas… e misturar no doce feito… embrulhar num pano velho de linho (restos duma roupa qualquer) atado com uma trança de lã vermelha/amarela/azul…;
- etc……etc…..etc…..
Hoje está um bom dia para ser Criativo: céu cinzento, chuva, frio…
Há pequenos momentos na vida que nos marcam. E partilhar, por exemplo, uma coisa destas com as nossas crianças, não só lhes estimula a Criatividade, como os aconchega numa atitude de muita partilha, cumplicidade, afecto e ternura. E não serão este tipo de coisas, as maiores heranças que podemos deixar aos nossos filhos? Não será tudo isto que fazemos, criamos… tantas vezes em pequenos momentos na vida… que marcamos a nossa presença nos outros e lhes deixamos saudade duma forma impar?”

Depois deste texto, penso que nada mais é necessário dizer.


Paro por uns instantes….e olho o céu pela janela (enorme) do meu gabinete.
As lágrimas caem-me pelo rosto…
Como eu gostava de poder também partilhar contigo, o que sinto dentro de mim!...

Um forte e caloroso abraço.

Maria Cristina Quartas
30/Dez/2009